Kpop é uma palavra que vem ganhando cada vez mais espaço na internet, especialmente nos últimos dias, onde seus fãs vêm realizando feitos admirados pelo público geral, como derrubar aplicativos para denunciar participantes dos protestos americanos, floodando tags de discurso de ódio com vídeos de seus artistas favoritos e fazendo Trump acreditar que teria uma audiência gigantesca ao confirmarem presença no seu comício.
Com todos esses atos de protesto não é raro ver em redes sociais como o Twitter mensagens de apoio e admiração à comunidade kpopper, mesmo depois de vários anos de desprezo e preconceito por esse mesmo grupo de pessoas, mas a questão a ser levantada por esse post é: de onde vêm esses posicionamentos? Por que os kpoppers estão politicamente alinhados a movimentos populares atuais? As músicas estão relacionadas a isso?
Esse é um fenômeno recente?
Minha história com o kpop não é tão recente assim: me envolvi no gênero musical em meados de 2012, bem antes da grande explosão que ele teve em terras ocidentais, e hoje sou praticamente uma senhora de idade dentro da comunidade: não conheço tão bem grupos mais novos, 60% da minha playlist é dedicada para grupos que não existem mais e já não estou mais envolvida como costumava estar, mas posso afirmar que dentro do kpop muitas vezes fui exposta a letras sobre revolução, empoderamento e inclusão.
É claro que dentro dessa mesma indústria existem muitas problemáticas: machismo, bullying, exploração de idols, trabalhos em condições análogas à escravidão, xenofobia e muito mais, mas isso é assunto para um outro post, o desse é entender e enaltecer letras e momentos que nos levaram para onde estamos agora: kpoppers politizadas contra movimentos machistas e autoritários.

Podemos começar falando sobre o empoderamento feminino e a imagem da mulher, que foi construída ao longo dos anos por girl groups que enfrentaram os preconceitos da época e abriram caminho para o atual cenário, onde vários grupos femininos falam sobre empoderamento e beleza.
Apesar deste ser um assunto bem comentado, aceito e até mesmo esperado para grupos atuais, anos atrás a cultura do empoderamento não era popular e, muitas vezes, sequer bem vista. Vale lembrar que a indústria do kpop se baseia em tendências e que, para um grupo, não seguir essas tendências pode significar seu fracasso, poucas vendas, hate por parte de fãs extremistas coreanos e afins, então quando temos grupos como Miss A que em 2012 lança “I Don’t Need a Man”, com uma letra que fala sobre a independência feminina, pagar suas próprias contas e não precisar de um homem que faça isso por você, estamos falando de um risco que abriu portas para que outros grupos pudessem falar sobre o mesmo assunto e sobre músicas que mulheres se identificam e se espelham.
Um ano mais tarde Girl’s Day lança Female President, uma música com conceito sexy que diz que se uma mulher pode ser presidente, podemos alcançar qualquer coisa, não há porque exitar. Ainda é possível ver comentários falando sobre a “vulgaridade” do grupo, que não deveriam se expor tanto, caso comum quando vemos grupos femininos que usam sensualidade, por mínima que seja, em seus vídeos e músicas.
Mesmo antes desses grupos mulheres corajosas como Lee Hyori desafiavam o patriarcado coreano com U Go Girl, Bad Girls e Miss Korea, além de estarem posicionadas contra o rígido padrão de beleza sul coreano.
Ainda sobre empoderamento e corpo feminino temos a Hyuna, que você pode conhecer como “a ruivinha do Gangnam Style”, adepta ao conceito sexy e muitas vezes atacada por ser sexy demais ou mostrar pele demais. Com títulos como “Because I’m the Best”, Hyuna declarou mais de uma vez que usa suas músicas e letras para empoderar outras mulheres a abraçarem sua sensualidade e serem quem elas quiserem ser, sem o medo do julgamento que vão receber.
E, para fechar, não tem como falar de empoderamento feminino na geração anterior de grupos sem falar de 2NE1, grupo julgado como “feio” pela própria gravadora, que além do empoderamento de músicas como “I Am The Best” fala muito sobre o “não”. Quando digo isso quero dizer que muitas músicas do 2NE1 são sobre não aceitar comportamentos abusivos, não aceitar menos do que merecem. A indicação fica para Go Away, música onde o clipe fala sobre o fim de um relacionamento abusivo.
Grupos como esses abriram portas para vários outros e letras de empoderamento feminino se tornaram comuns entre grupos femininos do meio. Dentre os grupos atuais Mamamoo faz um ótimo trabalho não apenas com músicas que falam sobre auto aceitação, como Yes, I am, mas também por se posicionarem publicamente contra o padrão rígido padrão estético sul coreano, especialmente para idols.
Não apenas de empoderamento feminino vive esse post, mas também há várias músicas dentro do kpop com um forte tom de crítica ao sistema sul coreano, seja político ou educacional, e que também moldam o constante sentimento de insatisfação que fãs do gênero vem demonstrando.
B.A.P, um grupo que já não existe mais, logo na sua música de estreia, Warrior, critica o sistema e o modo frio da sociedade de olhar para os problemas, enquanto incentiva as pessoas a serem guerreiros e não deixarem as injustiças sufocarem eles. No Mercy, Power e One Shot são outras músicas do grupo que gritam a insatisfação do grupo.

Um dos grupos mais famosos da atualidade, BTS, apesar de ter em suas músicas principais mais atuais letras que falam sobre amor, começou a carreira criticando o sistema de ensino sul coreano, famoso por ser extremamente rígido e até punitivo para estudantes que não se dedicarem completamente a ele, sacrificando tempo e saúde mental, como diz a letra de No More Dreams e No. Mais recente, Am I Wrong do BTS maqueia em uma música animada e roupas coloridas críticas aos escândalos governamentais sul coreanos.
Por fim, depressão e saúde mental também vem sendo um assunto muito discutido no meio por meio de músicas e discussões. G-Dragon, líder do grupo Big Bang, traz em grande parte dos seus álbuns a sensação de vazio que ele sente e como ser um idol e ter tudo que ele sempre sonhou não parece ser o bastante. RM, líder do BTS, também traz nas músicas escritas por si a sensação de solidão, da falta de amor próprio e como a depressão atinge ele. Superstar do G-Dragon e Reflection do RM são recomendações para entender essa perspectiva.
Falar sobre depressão, auto estima, empoderamento feminino e problemas sociopolíticos nas letras encoraja os fãs jovens a pensarem, refletirem e discutirem sobre seus posicionamentos no mundo e, por isso, é tão fácil encontrar fãs de kpop revoltados com o mundo atual já que o tempo todo seus artistas favoritos falam sobre por meio de músicas, coreografias e até posts nas redes sociais.
No mesmo tempo os fãs sempre são bombardeados por ataques de machismo e xenofobia aos grupos, notícias bizarras de dentro da indústria como tráfico de pessoas e denúncias de prostituição, além dos infelizes suicídios que acontecem por depressão e a pressão existente nos cantores. Por estarem convivendo o tempo todo com músicas tão poderosas juntamente com um mundo tão doente, a maior parte dos fãs não são completamente alienados, eles trazem esses problemas consigo e adaptam eles para suas realidades, já que cada país enfrenta problemas diferentes.
No fim a grande onda de kpop e os posicionamentos dos seus fãs é fruto da insatisfação crescente que jovens sentem pela situação atual de seus países ou comunidades e que sentem nas músicas dos seus grupos favoritos a voz que precisam para sentirem que podem mudar o mundo.
Imagem de capa: Reprodução 2NE1