Apesar de atualmente atuante no mercado de games, toda minha carreira profissional — não que ela seja muito extensa — foi calcada no marketing político. Ingressando nessa área no final de 2013 e começo de 2014, trabalhei com projetos que envolvem desde ONGs com enfoque sociopolítico a até eleições sazonais gerais (2014 e 2018) e municipais (2016), de vereadores a cargos de alto escalão do executivo.
Trabalhando em diversas proporções, o principal incômodo que eu observava é a divinização do medíocre. Candidatos com alguma expressão local que se acham deuses em sua missão política, intocáveis. Gente que mal conseguia se reeleger para seu cargo no legislativo em questão ou que acha que ainda tem moral com a população por conta de um mandato como deputado constituinte em 1987.
De fato, conseguir milhares — ou até uma ou duas dezenas de milhares — de votos é um feito. Afinal, em 2018, por exemplo, foram mais de dois mil candidatos a Deputado Estadual para 94 assentos (uma concorrência de vinte e um para cada vaga). A disputa para vereador, ao menos aqui em São Paulo, é ainda maior: foram mais de mil e trezentos candidatos para 55 vagas (vinte e três para uma) em 2016.
Na prática, contudo, a coisa não é bem assim. O fato de você ter conseguido se eleger com folga para vereador dentro de seu próprio antro não significará que você irá conseguir se eleger tão facilmente para deputado estadual só com isso, por exemplo. Ter sucessivos mandatos no legislativo não significa que você conseguiu alcançar uma prateleira mais alta no jogo político.
Certo, e o que isso tem a ver com o Compass, a GamePlan e o mercado de jogos?
Na prática, isso se reproduz aqui. Algo que enfrentamos muito em nosso cotidiano é conversarmos com desenvolvedores orgulhosos de seu projeto, com um zelo absurdo a ponto de não aceitar críticas, o que prejudica a performance dele como um produto inserido em um mercado bastante competitivo. Nesse aspecto, nós, felizmente, estamos aqui justamente para facilitar que o responsável adquira essa visão e pare de enxergá-lo como um trabalho passional.
Entretanto, mesmo deixando lado passional de lado, ainda falta um choque de realidade para essa galera. Assim como um vereador de, sei lá, Sapopemba, ou Pirituba, não é uma deidade política intocável e inalcançável, o seu projeto, por mais fria que seja a sua visão em termos de mercado, não é grande coisa.
Para se ter uma ideia, segundo dados do Statista, entre 2018 e 2019 foram lançados 17340 jogos na Steam, uma média de vinte e dois jogos por dia, aproximadamente. A concorrência diária não é muito longe, inclusive dos números (e aí admitimos que é pura coincidência), das vagas para o cargo legislativo.
O grande problema é que muita coisa já foi produzida em âmbito cultural. Mais do que isso, segundo a semiótica de Júlia Kristeva — cujos estudos se derivam de Bakhtin —, tudo é construído como um mosaico de citações porque a concepção da identidade de seu próprio autor é um conjunto, um amálgama, de suas vivências e experiências durante sua formação e pelo resto de sua vida.
Afinal de contas, é por isso que fazemos benchmarkings. Atualmente, muitos jogos irão, necessariamente, se parecer, tanto na teoria quanto na prática, com outros. Por isso que utilizamos inteligência de mercado para traçar a melhor estratégia e, factualmente, aprimorar essa mesma ideia que já está sendo virtuosamente requentada.

Vejo como muita presunção acreditar que seu projeto particular é especial. Claro, um projeto, se bem feito, pode atingir o devido sucesso dentro de sua própria escala, mas isso não significa que o relativo sucesso dele o torna comparável a verdadeiros grandes exemplos do mercado, como um Cuphead ou um Shovel Knight. As estatísticas, principalmente, jogam contra ele. Temos muito o hábito de ver os casos de sucesso e tomá-los como exemplos, mas eles só são sucesso porque outros — em número avassaladoramente maiores — não conseguiram se mostrar como expoentes.
É saudável também observar o seu próprio trabalho sendo executado de forma magistral e com extrema competência, o que pontualmente otimiza as chances de sucesso dele. Entretanto, torna-se cada vez mais difícil se tornar um verdadeiro exemplo universal porque, em algum lugar, seu projeto irá sempre remeter a algum outro.
Não estou dizendo que todos os produtos são inúteis porque eles são cópias que referenciam outros. É sempre válido se orgulhar do sucesso dele e usá-lo como estímulo para seguir em frente. O que eu estou dizendo é que ter um projeto em particular que deu certo não o torna referência em nada.
Desenvolvedor, pare. Seu projeto não é especial.