O que te faz querer jogar? O que nos faz amar os nossos hobbies?
Enquanto estamos jogando, lendo, ou praticando algum hobbie, não costumamos ter recompensas diretas, então por que continuamos o fazendo? Pra que gastar tempo com o que não vai nos ajudar diretamente com nada? Claro que isso tem a ver com o prazer que a atividade nos dá, mas de onde vem esse prazer?
Agora, falando sobre jogos, imagine que você está jogando um RPG. Depois de derrotar um chefe final terrível você recebe sua recompensa, um NPC fala com você e, em meio ao êxtase, você não leu uma palavra do que ele disse. Depois disso você é transportado para uma área diferente, sem nada que te indique o que fazer, e percebe que aquele NPC ignorado era o que te dizia o que fazer. Você não consegue mais voltar para ele e, de repente, o jogo já não parece mais valer nem mesmo uma pesquisa para se descobrir qual o próximo passo.
Ou quando aquele seu sobrinho de 4 anos que só pára quieto com o tablet deixa o joguinho favorito dele aberto. Curioso, você tenta jogar, mas percebe que é fácil demais pra você e logo deixa o tablet de lado também.
O que fez você perder o interesse nesses jogos? Por que o jogo que para você é tão bobinho entretém tanto as crianças?
Agora pense no seu jogo favorito, ou aquele que você e/ou seus amigos passaram meses sem conseguir desgrudar. O que esses jogos tinham que os outros não têm?
Quando conseguimos um xeque mate, ou derrotar aquele nosso amigo inteligente nas damas, somos envoltos por uma sensação extasiante de realização, bem estar e felicidade, aquela sensaçãozinha de dever cumprido, que os dois primeiros exemplos não conseguem passar. Experimentamos algo parecido quando derrotamos um chefe difícil, ou subimos de ranking em um jogo. Essa sensação é o que vamos chamar de flow, ou fluxo.
O fato de nos sentirmos bem quando fazemos alguma atividade do nosso agrado vem de uma série de fatores, porém um dos mais relevantes é o nivelamento entre a atividade e nossas habilidades.
Pense bem, você já se sentiu entusiasmado em fazer algo muito abaixo das suas habilidades? E quando foi obrigado pelas circunstâncias a fazer algo que você sabia que não poderia fazer, por exigir muito mais habilidades do que você tem?
Nossa tendência, enquanto seres humanos, é achar as coisas muito fáceis tediosas. Por outro lado, as que parecem impossíveis são frustrantes. Especialmente quando estamos falando de jogos, sistemas que as pessoas devem experienciar por conta própria, sem obrigação alguma.
Quem identificou esse comportamento humano e o teorizou foi o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, que após viver sua infância em um período de guerra, passou a se interessar em encontrar o que motivava as pessoas, o que as fazem felizes mesmo em meio a tanta desolação.
Com base em seus estudos, Csikszentmihalyi chegou na teoria do flow. Segundo ele, o balanceamento entre a dificuldade de uma tarefa e nossas habilidades nos permitem chegar no estado de flow.
Mas o que é esse tal estado de flow?
Ele é aquele momento de êxtase, felicidade e completude que sentimos ao realizar uma tarefa desafiadora. É nosso momento “eureka”! É a sensação de finalmente derrotar o boss final depois de uma madrugada inteira de tentativas.
Para entendermos um pouco melhor como chegar no flow, podemos analisar gráficos como o abaixo:
Como podemos ver, o flow fica entre o frustrante e o tedioso, a medida ideal entre a habilidade e o desafio. Mas você ainda pode estar se perguntando: o que isso tem a ver com game design? Como eu posso aplicar isso no meu game?
Se você costuma jogar frequentemente, definitivamente já experimentou o estado de flow ao jogar. Enquanto game designers nosso objetivo primário não é criar um bom jogo, mas sim uma boa experiência. Jesse Schell diz em “The Art of Game Design” que o jogo é um mero meio de projetarmos essa experiência para as pessoas.
Devemos sempre nos lembrar que jogos normalmente são experiências voluntárias, dificilmente somos obrigados a jogar algo, logo devemos criar designs que façam as pessoas quererem passar pelas experiências que criamos.
Estudar e aplicar a teoria do flow em seus games é aprender a balancear e tornar o jogo uma experiência desafiadora e divertida, que as pessoas irão querer jogar e gastar horas de suas vidas, mesmo sem nenhuma recompensa física visível, apesar de outros benefícios que essa experiência possa trazer..
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